segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Vidência - Maldição Fisicalista

“A velocidade que esse veículo vai, com a distância que se encontra do pequeno muro, é necessário apenas um centésimo de segundo de distração para uma colisão de danos significativos.”

A matemática nunca foi um ponto forte em mim, mas exemplifica magistralmente o que quero exprimir nas linhas que se seguem. 

A física é envolta em cálculos, faz até previsões com base nesses e, o cotidiano de um físico amante de sua função logo é tomado por seus feitos em laboratório, ele passa a calcular, e “probabilizar” tudo em seu entorno.

Quando fui tomado por essa maldição, acabei adoecendo do mal de um físico “fanático”, levando em minha vida cotidiana a capacidade de analisar e calcular as probabilidades, com base em evidências que coletei durante algum período de observação.

É como chegar ao resultado antes de ter contato com a experiência, acabando assim, com as expectativas do por vir e, o dano que essa maldição causa é imenso e doloroso mesmo para mim.

O futuro quase nunca é agradável e, as evidências apontam para seu desfecho irremediável.
Ele vai acontecer, ainda que você não consiga dizer quando, contudo, estou compreendendo que mesmo tendo visto, ainda não o vivenciei e sem chegar ao fato, nada são as evidências que tenho coletado.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Contato - O Gesso

Fui convidado a uma festa, relutei durante algum tempo, mas parte de mim quis sair de casa e demonstrar alguma consideração por aquele que me fizera o convite. No caminho tive vários impulsos para regressar ao meu “esconderijo”, contudo, tolerei as idiotices humanas explicitas no trajeto, e cheguei ao local.

Eu estava claramente transtornado, mas a educação conseguiu sobrepor-se ao meu desgosto de estar ali. Cumprimentei os que ali estavam, mas não consegui permanecer nem mesmo por 20 minutos.

“Já vai?” – questionou um dos qual me despedia. “Sim, não gosto muito de festas!” – foi minha seca e quiçá desnecessária resposta. Dei as costas e segui, mas não estava em paz.

No caminho as tolices humanas ainda me irritavam: a gritaria, as garrafas jogadas, brigas nos bares, um som ensurdecedor e sem qualquer conteúdo, as brincadeiras perigosas com veículos automotores, entre outras mais. Contudo, todos, sem exceção, divertiam-se, mesmo aqueles da discussão acalorada do bar.

Por que todos me pareciam tão imbecis? Por que não consigo gostar dessa diversão, afinal, minha idade biológica é simétrica a deles? Por que senti ciúme da “imbecilidade” deles? Por que penso tanto? Por que não consigo manter, e tenho dificuldades em criar vínculos?

A proposta de “quebrar o gesso” me pareceu boa, mas me parece demasiadamente complicada, ainda estou tentando me aproximar deles, mas não vejo futuro, talvez seja receio, talvez seja orgulho ou talvez, eu seja o único imbecil.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Desejos

Eles não querem querer e por si só, isso já é um desejo e como todos os desejos, é carregado de uma dose “cavalar” do veneno da esperança. Eles esperam alcançar a paz e sofrem por não tê-la, esperam um dia sem dor e sofrem quando dói, esperam justiça e sofrem sem conquistá-la, esperam recompensa e esperam não esperarem mais e sofrem por seus desejos, e matam ou morrem para obtê-los.

Então, eles criaram o ideal, um mundo perfeito sem qualquer sombra das variáveis impostas pelo acaso, eles chamam tal mundo de felicidade, uma palavra abstrata e sem qualquer sentido prático, mas que todos esses hominídeos desejam como um objeto físico, concreto, palpável, singular e eterno.

A busca pela felicidade é o desejo que os move e também o causador do martírio que sentem. Eles criaram o impossível, pois o real objetivo nunca foi alcançar, mas simplesmente desejar.

A paz que tanto almejam não será atingida, a menos que abram mão de todos os seus desejos, contudo são os desejos de cada um que os mantém vivos e dispostos a abrir os olhos a cada nascer do sol.

Os deuses precisam de crentes para que possam existir e os humanos de desejos para que possam sobreviver.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Rei Dos Escombros - O Empurrão

Eles estão sensíveis demais para notarem o valor de uma queda, acusam de inimigo aquele que os põe de ante dela, desperdiçando assim, o momento mais oportuno para levantar voo ou para aprenderem a se recompor com os próprios esforços.

Eles perdem tempo demasiado lamentando a própria dor, resultante de suas suposições e de seu frágil orgulho ferido, eu até posso ouvi-los: “Oh! Por que fizestes isso comigo?”, “Por que é tão pesada a minha cruz?”, “Como sofro.” E tantos outros murmúrios.

Deixe que o empurrem não se importando com as intenções de quem o faz, mesmo porque, as intenções nada significam se suas interpretações forem mais nobres.

Você cai querendo ou não, mas você escolhe como fará o trajeto e como será o pós-impacto, vire apenas um lamentoso fracassado ou faça dos escombros o mais belo dos reinados.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Primeiros Passos - O Gesso

“O que faço aqui?”, “Por que não dei uma desculpa qualquer para não vir?”, “Festas e eu somos antônimos.” – Essas frases não saiam da minha mente enquanto eu subia as escadas que me levariam ao salão de festas.

A cada passo, os ritmos cardíacos desse corpo pareciam subir drasticamente, as mãos suavam, e o olhar (embora eu não pudesse ver) certamente era um olhar assustado.

Rostos “estranhos” e então, alguém familiar (o motivo para eu ter rompido com minha misantropia) surge e me leva a uma mesa onde outro rosto conhecido estava. Os cumprimentos dão inicio a um breve diálogo, e outras pessoas me são apresentadas.

Consumo alguma dose de álcool (qualquer dose é dose uma vez que não estou habituado ao consumo do mesmo) e pareço me “soltar” mais, contudo, ainda perturbado.

Eu me limitei aos conhecidos, arrisquei-me muito brevemente por razões que desconheço, mas ainda dava passos temerosos por entre eles.

A dona da festa, embora fosse significativamente mais jovem que eu, dava passos (ainda que limitados) mais largos e desbravadores que os meus em meio aquela multidão, talvez por não conhecer a natureza cruel dessa espécie, ou talvez, por saber melhor do que eu o que eles possuem de bom.

domingo, 1 de julho de 2012

O Som Do Mar - Sombras Do Passado

A muito não o ouço, já faz muito tempo que lhe troquei pela solidão, contudo, é impossível esquecer o mau e o bem que me causara, a culpa é unicamente minha, fui eu quem projetou um futuro e quiçá um passado inexistente, apenas porque, naquele instante havia uma fragilidade que hoje, não deixa nem mesmo uma só sombra em mim.

Ao som do mar, vi algo desaparecer, minhas emoções foram levadas nas lágrimas que um dia tive, e que ao som do mar derramei. As frustrações tiveram algum espaço em minha experiência, resultando naquilo que hoje me tornei.

Sou orgulhoso do resultado que obtive, a lógica excessiva me favorece mais que me atormenta e não a teria conquistado se não tivesse o passado que possuí.

Sou grato por cada onda sonora outrora emanada por seu “balanço”, sou grato pela beleza que me fez sofrer no inferno do qual hoje sou rei, grato pelas lembranças que residem em tudo o que sou agora, mas que já não me tocam como um dia me tocaram.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Ego Sistema

Os anjos para justificar as vitórias e os demônios para atenuar o peso das derrotas, o visível não lhes basta, afinal, o mesmo os rebaixa a meros animais, e sua arrogância não suporta essa verdade.

São então, frutos d’um divino criador, portadores de uma alma eterna que subestima a carne em que habita. Eles se vêem como almas escravas de seus corpos.

Fruto do carma ou do pecado original, para eles essa vida é punitiva, eles passam então, a subestimarem a própria capacidade, rezam aos céus, aos infernos e qualquer outra divindade para aliviarem o “peso” que carregam, seu sofrimento é sempre maior e multiplicá-lo é sempre o melhor.

Passam a vida preparando a vida póstuma, vêem na morte a liberdade da poderosa e eterna alma, passam pela vida alimentando-se de desejos e sonhos inatingíveis, aumentando assim a angústia natural da existência.

Eles são vítimas da própria arrogância, eles são vítimas do pavor do desconhecido, são criadores das próprias ilusões, são crentes irremediáveis de seu ego sistema.